24 de Setembro 16:31
A gerência média do Banco do Brasil e a rã na chaleira

A gerência média quer uma PLR maior sem vinculação com metas individualizadas e um verdadeiro “acordo” de trabalho que tenha regras estabelecidas de forma clara.

Wagner Nascimento*
Diretor do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região

Uma metáfora bem conhecida nos meios acadêmicos é a da rã na chaleira. Se tentarmos colocar uma rã numa chaleira de água fervente, esta certamente saltará ou tentará com todas as suas forças pular para sobreviver. Quando, porém, colocamos uma rã numa chaleira de água fria e levamos ao fogo, ela se acomodará com o aquecimento da água aos poucos e, quando se atentar, já estará quase cozida, comprometendo sua sobrevivência.

A gerência média do Banco do Brasil não pode ter um comportamento semelhante ao de uma rã na chaleira. A inércia quanto às metas abusivas, à pressão e ao assédio moral tem levado a gerência média do BB a uma percepção tardia de que o corpo já está cozido, debilitado e doente; e, mesmo assim, acham que as coisas são assim mesmo e não adianta fazer nada.

A Campanha Nacional dos Bancários é um momento importante para discutir temas como metas absurdas e assédio, além, é claro, de falar sobre aumento salarial. Agora também são estabelecidas mesas de negociação com intuito de discutir e encontrar as soluções para os problemas detectados durante o ano.

Vêm para a pauta de negociações diversas reivindicações de interesse da gerência média como a equiparação salarial com trabalhadores de outros bancos - que pagam melhor seus funcionários de mesmo cargo; a igualdade de salários entre os gerentes de atendimento, de serviço e de relacionamento nas Unidades de Negócio; igualdade entre os gerentes de grupo e de setor nas Unidades Estratégicas e Unidades de Apoio.

A gerência média quer uma PLR maior sem vinculação com metas individualizadas e um verdadeiro “acordo” de trabalho que tenha regras estabelecidas de forma clara.

Esses gerentes também não querem correr o risco ser descomissionados em apenas um semestre, como propõe a direção do banco.

Nenhum deles sabe como são criadas as metas, nem o porquê das constantes e“estimulantes” mudanças no Programa Sinergia - Sistema de Acompanhamento de Metas do Banco do Brasil, de forma que este não seja entendido nem pela gerência média, nem pelos gerentes gerais das agências.

Nem mesmo as Gerências Regionais não sabem de forma mínima explicar o porquê de uma carteira de clientes estar em 1º lugar em um dia e no dia seguinte ser a última colocada. Como explicar também uma carteira ter saldo positivo de 70 mil na segunda-feira à tarde e, na terça-feira pela manhã está devendo 1 milhão? É normal uma meta de um semestre para determinado produto ser estabelecida em 300 mil e no meio do período se transformar em 1,5 milhão?

Estas são algumas das reclamações colhidas nas conversas, reuniões, cafezinhos e bate-papos, desabafos diários de colegas angustiados. Mas como fazer da reclamação uma indignação?

A greve, frustradas as negociações, é o melhor momento para mostrar a sua importância para a empresa e expor toda essa indignação e, ainda, junto com os outros colegas, lutar por salários melhores e condições de trabalho mais favoráveis. Contudo, a síndrome da rã na chaleira levou muitos profissionais da gerência média do BB a se transformarem rapidamente de indignados em resignados.

Na busca da motivação pela qual uma rã na chaleira não faz greve, ouve-se dizer que é porque:

- ela fechou os olhos para o assédio moral. Se a meta for abusiva demais, uma "espuminha" (vendas casadas e “incremento” de produtos em contas inativas) resolve já que a fraude nos produtos é norma da casa e a "turma de cima" faz vista grossa;
- o adoecimento por depressão tem promessa de cura com os diversos remédios de uso controlado à disposição nas farmácias e drogarias de cada esquina;
- muitos foram comissionados de uma forma pouco objetiva e acham que deve ao seu superior uma relação servil, quebrada pelo simples rodízio de gestores, onde uma nova relação deverá ser estabelecida, com grande possibilidade de se transformar numa tormenta de ameaças de descomissionamento.

Não se pode ter o comportamento de rã na chaleira e se esconder da luta, usando o período de greve para fazer seu telemarketing e cumprir suas metas "sossegadamente" sem a "chatice do atendimento" ao cliente na agência, exatamente como o banco gosta e prega nas reuniões. Já que a ética é coisa dos livros, vamos então "fraudar a greve", onde nós fingimos que fazemos greve e o banco finge que nos valoriza.

Mas o sentimento de rã na chaleira não é de toda a gerência média. Decerto há muitos que, ao invés de resignação, têm demonstrado profunda indignação com as condições de trabalho e adoecimento precoce e com a forma como a empresa tem conduzido seus negócios. Estes estão de parabéns pela postura firme, serena e corajosa. Postura essa que ganhou as ruas e dá seu recado claro.

Este texto é um convite à reflexão sobre a nossa responsabilidade como trabalhadores e como pessoas. Dá tempo de pular da chaleira e saltar para as ruas enquanto a água não ferve e nos mata! Então, você vai ficar aí parado?

Saia do inverno da resignação! Salte, que a primavera chegou!

*Wagner Nascimento é funcionário do Banco do Brasil e já presenciou colegas tomando remédio tarja-preta e viu amigos adoecendo de depressão dentro do banco.

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