08 de Abril 23:58
A Líbia que eu tive a sorte de conhecer

Nas vezes que fui à Líbia através do Marrocos, vi centenas de agricultores líbios viajando de avião, fazendo compras de utensílios agrícolas no Marrocos. Nas escolas e universidades que visitei, vi estudantes felizes, combativos, libertários.

José Gil de Almeida
Jornalista

A Líbia de Kadafi era a verdadeira Líbia. A Líbia socialistas, libertária, revolucionária, era a Líbia de Kadafi. A Líbia de hoje é a Líbia dos traidores, dos ratos, dos mercenários pagos pelos EUA, Israel e corruptas monarquias árabes. A Líbia de hoje é um país dominado, ocupado por tropas de 40 países – governos subservientes e covardes, a serviço dos interesses estratégicos dos EUA e do sionismo internacional. Enquanto militares estrangeiros se banham nas águas do Mediterrâneo, aproveitam para roubar petróleo e gás natural da Líbia, com a irônica desculpa de “despesas de guerra”.

Viajei à Líbia 18 vezes. Três meses antes do início dos ataques aéreos da Otan que destruíram a maior parte da infraestrutura da Líbia, assassinando mais de 200.000 líbios, eu estava em Trípoli, participando de reuniões com membros da Associação dos Apoiadores do Livro Verde. Naqueles dias já havia um clima pesado no ar. Penso que os líbios sabiam que o pior estava por vir. E eles se preparavam estocando armas e alimentos. Em algumas universidades lançavam campanhas de boicote a produtos norte-americanos.

Nessas 18 vezes que estive na Líbia, a partir de 1985, acompanhei pessoalmente a evolução e o progresso de um país cujo governo nacionalista nasceu em primeiro de setembro de 1969, durante a Revolução Al Fateh, quando um grupo de militares jovens, liderados por Muamar Kadafi, derrubou o Rei Ídris (um fantoche dos imperialistas). Naqueles dias de fervor revolucionário, os jovens oficiais líbios cercaram a maior base militar norte-americana no exterior, e deram 24 horas de prazo para que deixassem o território líbio. O mesmo foi feito com as bases inglesas e italianas.

A Líbia da Revolução Al Fateh era inspirada na doutrina pan-arabista de Gamal Abdel Nasser, o grande líder egípcio que uniu os árabes honrados e decretou guerra ao imperialismo e ao sionismo – e por isso foi assassinado, envenenado.

Em 1973 Kadafi lançou o Livro Verde, um guia para a construção da democracia direta, onde o povo exerce o poder de forma direta, sem intermediários. A partir de então, por seu exemplo de solidariedade internacional, a Líbia passou a ser um dos alvos preferenciais dos imperialistas e sionistas. Ao longo dos anos não faltaram acusações de que Kadafi financiava grupos terroristas – jamais provadas –, quando, na realidade, o verdadeiro terrorismo de Estado era e continua sendo praticado pelos governos dos EUA, Inglaterra, Israel e outros.

A Líbia sofreu ataques e retaliações, boicotes e sanções da ONU, para mudar sua política honrada e heróica. A Líbia foi a principal financiadora da luta antiapartheid na África do Sul, e contribuiu financeiramente com as lutas de libertação da Nicarágua, Timor Leste, Angola, Moçambique e muitos outros países.

Kadafi construiu o Rio Verde, um rio artificial que retirava água do subsolo do rio Nilo, e irrigava parte do deserto líbio, levando água para a maioria das cidades do país. Foi a maior obra de engenharia na história da humanidade. A canalização do Rio Verde foi um dos primeiros alvos dos aviões da Otan na Líbia. E ainda falavam em defender o país? Hipócritas!

Em 2 de março de 1977 na sessão extraordinária da Assembleia Geral do Congresso Popular, em Sabha, a República Líbia foi transformada em Jamahiriya (Poder Popular) Árabe Popular Socialista da Líbia.

Na noite de 15 de abril de 1986, por ordem do presidente dos EUA Ronald Reagan, aviões americanos bombardearam a capital líbia de Tripoli e Benghazi. 40 líbios morreram, incluindo a filha adotiva de Kadafi, Hana, de 2 anos.

Em 2011 a Líbia era o país mais rico da África, com melhor distribuição de renda, e com saúde, educação e habitação gratuitas.

Todas essas conquistas e avanços sociais não foram suficientes para deter a guerra desencadeada por potências ocidentais para invadir e ocupar a Líbia, em busca de suas riquezas naturais, gás natural e petróleo.

Kadafi dedicou sua vida à causa do povo. Tivesse agido como os monarcas árabes, roubando dinheiro do povo para enriquecer seus familiares, ele estaria vivo, mas morto em vida, e Kadafi jamais aceitaria esse papel ridículo de fantoche dos inimigos da humanidade. O incansável beduíno saiu de Sirte para conquistar o mundo com suas ideias e ações, e morreu defendendo seus ideais, em um mundo em que a maioria dos governantes é formada por covardes e canalhas da pior espécie.

Em dezembro de 2010 eu caminhava pelas ruas de Trípoli com a certeza de que algo muito ruim estava para acontecer. Bastava ver o semblante dos líbios do governo popular da Jamahirya. Eles que nas vezes anteriores estavam sempre sorridentes e felizes, desta vez estavam taciturnos, preocupados. Sabiam – consciente ou inconsciente – que a Líbia do poder popular estava ameaçada.

Havia oposição? Sim, claro. Em todas as partes sempre há alguma oposição. Se não houvesse, não seria um poder popular, seria uma ditadura. Mas a oposição vinha de setores elitistas, minoritários, que desejavam o capitalismo como forma de aumentar suas riquezas. A elite de Benghazi, que comercializava petróleo estatal praticando corrupção, reunia fortunas – estimulados pelos imperialistas – para financiar opositores e comprar armas e mercenários.

Na primavera de 2011 o governo norte-americano exigiu que a ONU apoiasse a guerra contra a Líbia. Foram reunidas as forças militares de 40 países para atacar uma pequena nação de 8 milhões de habitantes. A frança de Sarkozy foi o primeiro país a bombardear a Líbia, de forma covarde e criminosa. Justamente Sarkozy que durante sua campanha eleitoral implorou dinheiro a Kadafi – e recebeu, e tal como Judas, traiu aquele que o ajudou.

A partir do primeiro tiro francês, a Líbia mergulhou num inferno, onde milhares de toneladas de bombas foram despejadas diariamente sobre cidades, rodovias, canais de irrigação, indústria, comércio, escolas, universidades, hospitais etc. Todos os ataques foram aéreos, enquanto as potências invasoras financiavam mercenários e traidores para avançar por terra. Sem o apoio da Otan, os rebeldes não existiram. Sem o dinheiro dos governos dos EUA e Israel, os rebeldes não passariam de 200.

No dia 20 de outubro de 2011 o líder Muamar Kadafi foi assassinado, martirizado em sua cidade natal de Sirte, combatendo ao lado de seus fiéis soldados. A maior força militar do planeta enfrentava combatentes heroicos e honrados, que preferiam a morte a se render.

E assim, mais um país foi derrotado e destruído pelas forças do mal, pelo “país governado pelo demônio”, como disse o Aiatoláh Komeini. Pelos “adoradores do Bezerro de Ouro”, como diria o padre católico Bruno Baggio, que morreu em Trípoli durante um ataque da Otan.

A guerra de ocupação da Líbia foi outro exemplo de terrorismo de Estado que o mundo assistiu desde a Guerra da Coréia (quando os norte-americanos assassinaram 1/3 da população com o apoio das Nações Unidas) até os dias de hoje, onde tropas e mercenários norte-americanos fomentam guerras, sabotagens, sublevações, golpes de Estado e assassinatos em massa em diversos países do mundo.

O caso da Líbia é uma prova concreta de que não há justiça, nem ordem, nem Lei no mundo atual, dominado pelo imperialismo e pelo sionismo. A grande maioria dos povos do planeta são vítimas da cobiça e da guerra das potências imperialistas, a exemplo dos últimos séculos. A Lei é a lei do mais forte. Aos amantes da liberdade não resta outro caminho senão continuar o combate iniciado por Che Guevara, Sandino, Kim Jong Il, Muamar Kadafi, Nelso Mandela e muitos outros.

O imperialismo e o sionismo são inimigos da paz e da felicidade dos povos e nações. São inimigos mortais de todos os povos da Terra. A Líbia é outra prova dessa verdade incontestável. A situação atual na Síria e no Irã são provas insofismáveis.

A Líbia que eu tive a sorte de conhecer foi uma Líbia pura, honrada, onde o povo se surpreendia a cada entrega de gigantescos conjuntos habitacionais, gratuitos, a exemplo da educação e saúde. Ainda lembro que via milhares de negros dirigindo veículos novos e caríssimos nas cidades líbias, algo incomum na maioria dos países. Vi milhares de lojas onde pessoas felizes caminhavam e faziam compras, sem distinção de classes porque segundo o Livro Verde “todos devem ser associados, e não assalariados”.

Nas vezes que fui à Líbia através do Marrocos, vi centenas de agricultores líbios viajando de avião, fazendo compras de utensílios agrícolas no Marrocos. Nas escolas e universidades que visitei, vi estudantes felizes, combativos, libertários. As noites em Trípoli, Sirte e Benghazi eram festivas, com milhares de pessoas nos cafés, nas praças. Havia uma verdadeira febre na construção civil, e a maioria das casas eram verdadeiras mansões. Felizmente tenho fotografias dessa Líbia que tive a sorte de conhecer, antes que as potências ocidentais despejassem suas bombas e destruíssem as vidas de 200 mil pessoas inocentes, e a infraestrutura de um país inteiro.

A Líbia foi do paraíso ao inferno em poucos meses, mas o sangue do mártir Muamar Kadafi, do mártir Omar Moukhtar, não deixarão o povo líbio esquecer seus melhores tempos, e a necessidade da constante luta pela libertação, apoiando e fortalecendo o Exército de Libertação da Líbia. 

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