26 de Maio 09:38
Mercosul precisa assinar acordo com UE antes dos EUA

Europa é a principal parceira comercial do Mercosul. Acordo poderia englobar volume de até 90% do comércio entre as duas regiões

  • Ft.: Wosseb Sede do Parlasul - o Parlamento do Mercosul e que fica em Montevidéu
  • Por Adriana Moysés
    - da RFI - Rádio França Internacional

    O Mercosul quer apresentar até o início de junho uma proposta única para negociação de um acordo de livre comércio com a União Europeia (UE), segundo tem afirmado o governo brasileiro. Negociar um acordo ambicioso é fundamental, mas o Mercosul precisa ter cuidado com um concorrente de peso: os Estados Unidos. Desde junho do ano passado, o governo americano também negocia um tratado para ter maior acesso ao mercado europeu. Ouça nesta reportagem entrevistas com lobistas que defendem interesses brasileiros na UE.

    A Europa é a principal parceira comercial do Mercosul, e um acordo entre os dois blocos poderia englobar um volume de até 90% do comércio entre as duas regiões. O acordo é discutido há quase 15 anos, mas esbarra em dificuldades, como a redução de tarifas de importação e incompatibilidades nas normas sanitárias e industriais. A atual crise econômica na Argentina também dificulta o processo.

    Géraldine Kutas, representante da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), entidade setorial da indústria de açúcar e bioetanol do Brasil, acompanha de perto esse dossiê em Bruxelas. Segundo ela, as eleições para o Parlamento Europeu, nesta semana, não constituem um problema para a continuidade das negociações, uma vez que elas acontecem sob o comando da Comissão Europeia, o órgão executivo do bloco.

    "O ideal seria que a primeira troca de ofertas entre o Mercosul e a UE fosse apresentada entre junho e julho", afirma Géraldine. Depois desse período, o Brasil vai entrar no pico da campanha eleitoral e a Comissão Europeia passará por mudanças, com a posse de um novo presidente e de comissários em novembro, tornando o cenário imprevisível.

    Proposta ambiciosa

    A consultora insiste que a proposta do Mercosul deve ser ambiciosa. "Haverá no mínimo três trocas de ofertas, o que é habitual nesse tipo de negociação, depois o acordo ainda terá de ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos quatro parlamentos sul-americanos (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), o que adia ainda mais a entrada em vigor do texto", prevê Géraldine. Ela considera "muito importante" que o Mercosul assine o acordo com os europeus antes dos Estados Unidos, que também negociam um tratado de redução de barreiras comerciais com a Europa.

    A Uniao Europeia faz cálculos globais do quanto ela pode oferecer de acesso a seu mercado e isso é uma questão chave na pauta agrícola. "Se os Estados Unidos conseguem fechar com a Europa antes do Mercosul, a maioria das cotas de importação vai para os Estados Unidos e o Mercosul só terá as sobras", adverte Géraldine. O governo brasileiro precisa ficar atento a esse "timing" para garantir um melhor acesso ao mercado europeu.

    Jogi Oshiai, do escritório de advocacia Fratini Vergano, em Bruxelas, defende os interesses do agronegócio da América Latina, em especial o setor da carne, nas instituições europeias. Ele acha que o Brasil é prejudicado por estar atrelado ao Mercosul.

    "O Brasil vai ao revés da história. Enquanto todos os outros países já estão negociando acordos de redução de barreiras tarifárias com os europeus, como acontece atualmente com o Japão e os Estados Unidos, o Brasil continua amarrado com a questão do Mercosul, que não chega a nenhum lugar, e nós perdemos todas as vantagens comparativas para nossos concorrentes que estão obtendo facilidades para obter acesso ao mercado da União Europeia", argumenta Oshiai.

    A analista política Alice Pappas, coordenadora de projetos do European Policy Center (EPC), um think tank de Bruxelas, reconhece que as disparidades econômicas entre os países do Mercosul complicam as negociações do acordo.

    O Brasil responde por 70% do PIB do Mercosul e a Europa é a principal parceira comercial dos brasileiros. Por outro lado, a Argentina, neste momento enfraquecida pela crise econômica, não tem o mesmo interesse em abrir seu mercado aos produtos europeus. Por essas e outras razões, em caso de acordo, os produtos que serão parte da troca de ofertas terão suas barreiras reduzidas ou abolidas em prazos diferentes. 

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